Stella  


      Já raro e mais escasso
      A noite arrasta o manto,
      E verte o último pranto
      Por todo o vasto espaço.

      Tíbio clarão já cora
      A tela do horizonte,
      E já de sobre o monte
      Vem debruçar-se a aurora

      À muda e torva irmã,
      Dormida de cansaço,
      Lá vem tomar o espaço 
      A virgem da manhã.

      Uma por uma, vão
      As pálidas estrelas,
      E vão, e vão com elas
      Teus sonhos, coração.

      Mas tu, que o devaneio
      Inspiras do poeta,
      Não vês que a vaga inquieta
      Abre-te o úmido seio?

      Vai. Radioso e ardente,
      Em breve o astro do dia,
      Rompendo a névoa fria,
      Virá do roxo oriente.

      Dos íntimos sonhares
      Que a noite protegera,
      De tanto que eu vertera.
      Em lágrimas a pares.

      Do amor silencioso.
      Místico, doce, puro,
      Dos sonhos do futuro,
      Da paz, do etéreo gozo,

      De tudo nos desperta
      Luz de importuno dia;
      Do amor que tanto a enchia
      Minha alma está deserta.

      A virgem da manhã
      Já todo o céu domina . . .
      Espero-te, divina,
      Espero-te, amanhã.

    (Machado de Assis)


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