Que presente te dar?

 

Que presente te darei, eu que tanto quero e 

pouco dou, porque mesquinho, egoísta, 

distraído não te cumulo 

daquilo que deveria cumular?

Deveria desatar inúmeros presentes ao pé da árvore, entreabrindo jóias, tecidos, requintados e pessoais 

objetos, ou deveria dar-te o que não posso buscar 

lá fora, mas o que em mim está fechado e

 mal sei desembrulhar?

Gostaria de dar-te coisas naturais, feitas com a mão,

 como fazem os camponeses, os artesãos, como faz

 a mulher que ama e prepara o Natal com seus

 dedos e receitas, adornos e atenção.

Te dar, talvez, um pedaço de praia primitiva,

 como aquelas do Nordeste, ou de antigamente 

- Búzios e Cabo Frio; um pedaço de mar das Ilhas 

do Caribe, onde a água e o amor são transparentes 

e onde a areia é fina e brilhante e, sozinhos, 

habitam a eternidade, os amantes.

Te dar aquele verso de canção um dia ouvida não 

sei mais aonde, se numa tarde de chuva, 

se entre os lençóis cansados; um verso, uma 

canção ou talvez o puro som de um saxofone 

ao fim do dia, som que tem qualquer coisa 

de promessa e melancolia.

Fugir uma tarde contigo para os motéis, quando 

todos os homens se perdem nos papéis e 

escritórios, números e tensões: fugir contigo 

para uma tarde assim,um espaço de amor 

entreaberto na peça que nos prega 

a burocracia dos gestos.

Gravar numa fita as canções que me 

fazem lembrar de ti e ouví-las, ou tocar de 

algum modo, em algum cassete as frases que

 disseste, que em mim gravaste: frases líricas, 

precisas, que quando estou cinza, 

relembro e me iluminam.

Te enviar todos os cartões que colecionas, 

de todos os lugares que conheço ou que tu

 nem imaginas, ir a essas paisagens e ilhas 

e habitá-las com os selos e palavras 

de interminente paixão.

Dar-te aquela casa de campo entre montanhas, 

aquele amor entre a neblina, aquele espaço 

fora do mundo, fora de outros espaços, 

sem telefone, sem estranhas ligações,

 para ali nos ligarmos um no outro em 

una e dupla solidão.

Se queres jóias, te darei. Aqueles corais que 

vendem na Ponte Vecchia, em Florença; 

o âmbar ou as pérolas que expõem nas lojas

 do Havaí; aquelas pedras de vidro para

 iridescentes colares, que vendem em Atenas,

 ao pé da Plaka, ao pé da Acrópole, que 

amorosa nos contempla.

Te dar numa viagem os castelos do Loire, 

e sair comendo e rindo juntos no roteiro

 gastronômico franco-italiano; ali comendo 

e aqueles vinhos bebendo, de tudo nos 

esquecendo, sobretudo dos remorsos 

tropicais de quem tem sempre ao lado 

um faminto desamparado, de culpa nos ferindo.

Te darei flores. Sempre planejei fazer isto. 

Tão simples: de manhã acordar displicente 

e começar a colher flores sob a cama. Ir tirando 

buquês de rosas, margaridas, vasos de íris, 

orquídeas que estão desabrochando e, uma 

a uma, de flores ir te cumulando. E amanhecendo 

dirás: o amado hoje está mel puro, seu amor

 aflorou e está me perfumando.

Escrever bilhetes pela casa inteira, metê-los

 entre as roupas, armários, prateleiras, 

pra que na minha ausência comeces a desdobrar 

recados daquele que nunca se ausentou, 

embora esse ar de quem vive partindo, mas,

 se alguma vez partiu partido foi para 

reunido regressar.

Te dar um gesto simples. Passar a mão 

de repente sobre tua mão, como se apalpa

 a vida ou fruto que pede para ser colhido.

Te dar um olhar, não aquele olhar distraído, 

alienado de quem está nas coisas prosaícas

 perdido, mas um olhar de quem chegou inteiro

 e que se entrega enternecido e desamparado 

dizendo: olha, sou teu, agora veja lá

 o que vai fazer comigo.



Affonso Romano de Sant'Anna
(do livro "Fizemos bem em Resistir"
Editora Rocco)

 

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