Mundo encantado

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Meu pai há pouco tempo lembrou uma passagem muito 

expressiva da minha infância.

Desde que eu era pequena, minha família procurava contar 

à primogênita histórias infantis, para que isso fosse um incentivo 

à leitura, quando eu ingressasse na escola.

Assim, relatavam-me antigos contos de fadas, princesas, anões, 

bruxas, magos, florestas, gnomos e reinos encantados. Para mim, 

a hora mágica do dia era aquela das minhas personagens preferidas: 

As fadas. Naquele momento minha imaginação alçava longos vôos 

e recriava belos cenários de sonho, onde as criaturas 

boas sempre venciam o mal.

As histórias continuaram até eu ser alfabetizada, quando comecei 

a buscar na biblioteca da escola os contos que eu amava. Eles eram 

o meu vício e transportavam-me em viagens inesquecíveis a 

países distantes, encantadores e exóticos. Minhas leituras

 envolviam-me tanto que eu sempre fazia o possível para 

desaparecer com elas. Minha mãe cansava de chamar e procurar 

por mim. Eu não ouvia, tão absorta estava nos enredos, 

personagens e cenários do meu mais recente livro.

Aí, então, durante um inverno bem mais rigoroso do que os outros, 

acordei para ir ao colégio e abri a janela. O que vi deixou-me 

completamente maravilhada. Fiquei sem fala por alguns minutos, 

depois, fui até meu pai e disse:

—Pai, uma fada encantou o mundo!

Na verdade, todo o jardim estava coberto de neve, que há anos 

não ocorria na cidade. Aos olhos de uma criança, o branco presente 

na cena não tratava-se de um fenômeno metereológico, e sim, 

de um poderoso feitiço.

Com o passar do tempo, este fato foi esquecido. Comecei a trabalhar e a estudar: as responsabilidades aumentavam e sobrava-me pouco tempo para ler ou relembrar

 memórias queridas.

Até que nesse dia, após muitos anos, meu pai lembrou-me 

do acontecido. Foi o retorno de uma recordação maravilhosa. 

Como se fosse hoje, o cenário de brancura invadiu a minha 

mente e repetiu-se da mesma forma 

como ocorreu: uma intensa emoção de deslumbramento.

Fiquei pensando. Estamos tão ligados ao trabalho, aos estudos, 

às ocupações que esquecemos tudo o que para nós fora 

importante durante muitos anos. Esquecemos e é necessário algo 

incomum para nos trazer de volta uma boa lembrança. Fechamos

 o álbum de fotografias que em nossa mente cultivamos com

 grande organização; ao abri-lo, as gravuras estão desordenadas 

e não sabemos em que páginas devemos colocá-las.

Quanto tempo demoramos para entender como é importante

 e prazeroso voltar a olhar o mundo com os olhos de uma criança. 

Quanto tempo passamos perdidos de nós mesmos, do 

deslumbramento e da felicidade das coisas simples.

A partir de então, reaprendi a me alegrar com cada flor desabrochando, a dançar ao som de uma música singela, a inspirar-me com a luz da lua, a contar as cores do céu durante o amanhecer e o anoitecer e até mesmo a descobrir com que estranhas formas as nuvens se parecem. 

Em certos momentos, se faz presente uma neblina, uma névoa de contos de fadas. Talvez poucos a percebam com freqüência, e talvez haja muitos que nunca a viram. É uma das muitas manifestações da poesia na Natureza. Para avistá-las basta um olhar sincero, ou mesmo despreparado, sem retração, desconfiança ou preconceito.

É esse olhar, a admiração diante do belo, a confiança cega de uma criança, que até hoje busco. Sem orgulho, ou medo de errar. Porque assim somos nós mesmos, sem necessidade de tomar para si uma postura autoconfiante, austera, segura. 

Apenas a criança inocente, alegre, curiosa.


(Mirtes  Sfredo Wicteky)

 

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